Carta aberta ao padre Bruno Sechi em memória

Caro pe. Bruno: PAZ e BEM!

Onde você está? Por que foi para essa viagem sem retorno, sem se despedir de ninguém? Isso não combina com o seu jeito. Maldito vírus! Tristeza, choro, dor inconsolável, tomaram conta do coração de milhares de pessoas que sempre tiveram amor e amizade por você.  Covid-19 sem vergonha! Em questão de algumas horas roubou do nosso meio um grande irmão, um companheiro de luta, um homem de fé, um exemplo de cidadão do Reino de Deus na sociedade de hoje. Aquela sua despedida da sede do Emaús, no dia seguinte, já morto, no carro fúnebre, sem parar, o povo chorando à beira das ruas, doeu demais.

E agora? O que fazer? Nesses dias parei, pensei, mergulhei na sua vida. Há só uma saída digna: transformar a sua saudosa lembrança em memória viva, fonte de energias inesgotáveis. Sim, padre Bruno, você é dos mortos cuja memória não pode morrer. O prejuízo de nossa parte seria incalculável. Você já ressuscitou à vida sem morte. Você está ressuscitando na vida de tanta gente. Bendito seja Deus Pai!

Então, como faz bem repassar o filme de sua vida para nunca mais esquecer. Quando na Europa irrequieta da década de 1960, a juventude foi às praças gritando: “Proibido proibir, quem manda no meu eu sou eu!”, você quis dar um rumo certo à sua vida, sem gritarias inúteis. Você pegou um navio qualquer, deixou a sua bela e agitada Itália e chegou à sua nova pátria, o Brasil. Aqui terminou os estudos, consagrou a sua vida, se tornou padre e no início da década de 1970 chegou em Belém, ‘casa do pão’.

Tá difícil resumir a sua vida tão cheia de vida, e tão bem vivida. Há um dado de fato, que me toca profundamente: você foi uma pessoa de periferia. Foi sua opção: periferia geográfica (sempre morou em bairros de periferia); periferia ‘existencial’ (você deu prioridade às pessoas carregando dificuldade de todo tipo); periferia social (escolheu os últimos da sociedade); periferia econômica, política (não foi atrás de poder, não encheu o seu bolso de dinheiro). Até periferia eclesial (não foi atrás de primeiros lugares, de títulos, nunca presidiu celebrações famosas).

A sua vida foi uma pregação ao vivo, sempre houve coerência entre o seu falar e o seu agir. Por isso, a sua palavra possuía uma grande autoridade moral. E desde as periferias questionou os centros. Escolheu a periferia das periferias: adolescentes e crianças abandonadas, em situação de rua, tachadas de marginais, desprezadas e feridas. Começou com uma espécie de restaurante do pequeno vendedor com e para crianças do Ver-o-Peso. E daí partiram belas e revolucionarias iniciativas. Surgiu, sempre em Belém, o belo Movimento República de Emaús com as seguintes frentes de trabalho: República do pequeno vendedor, Campanha de Emaús, Escola Cidade de Emaús, Centro de Defesa dos Direitos da Criança e Do adolescente (CEDECA), o primeiro criado no Brasil e foi a base do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua. Em todas essas frentes de trabalho contou com o apoio criativo e entusiasta de muitos jovens. Quantas maravilhas!

Você, pe. Bruno, foi a voz dos sem voz, uma voz corajosa, teimosa. Nunca vimos sinais de ódio no seu rosto e nas suas posturas. Indignação sim, ódio nunca. Indignação capaz de gerar projetos de vida, de esperança, pois numa sociedade dividida, conflitiva, não há amor verdadeiro ficando em cima do muro, sem indignação ética. Você soube unir ternura e vigor, misericórdia e rugido de leão. Teve um coração ecumênico, capaz de juntar todas as energias positivas, sem preconceitos.

Em 1999, quando era pároco na Terra Firme, pediu Santas Missões Populares. Trabalhamos juntos. Foram dois anos fecundos. O bairro tornou-se um laboratório de belas iniciativas populares; o povo se sentiu sujeito corresponsável na vida da Igreja e nas ruas. Belos milagres aconteceram. Surgiram cerca de 20 comunidades. Coisa linda!

Eu sempre me perguntava: onde está a força que sustenta a caminhada do pe. Bruno? Não foi difícil encontrar resposta. Você, pe. Bruno, foi um humilde discípulo de Jesus de Nazaré. Mas do Jesus verdadeiro, o da Galileia, que foi o profeta itinerante do Reino de Deus, o poeta da ternura e da misericórdia, o missionário da vida e da dignidade para todos, o curador das feridas, o libertador de todos os males, chamados de demônios, o defensor firme das crianças e adolescentes numa época em que era proibido ser criança.

Queremos guardar sua memória viva; queremos continuar o seu testemunho de vida, gritando aos quatro ventos que uma nova sociedade é possível, é necessária, é urgente. Urgentíssima, especialmente nesses tempos do vírus Covid-19. E tem que começar de cada um de nós. Jesus de Nazaré dizia isso aos seus discípulos e discípulas, sem cessar (Mc 8,15): Cuidado com a mentalidade dos fariseus (símbolos de uma religião moralista, legalista, racista, hipócrita, desligada da vida); cuidado com a mentalidade de Herodes (símbolo do poder corrupto, da ganância sem medida). A conversão pessoal é a mais revolucionária.

Obrigado por ter me convidado a morar na sua casa. Não foi possível por causa dos serviços. Obrigado também em nome da grande família das Santas Missões Populares com a qual você tanto sintonizava. A sua maior riqueza – como sempre dizia – era o apoio solidário da sociedade belemense. Tomara que nunca falte essa solidariedade, sobretudo nesses tempos difíceis, pois tem gente corajosa decidida a continuar a sua bela missão. Ela não tem prazo de vencimento!

Obrigado pe. Bruno: pequeno e grande guerreiro indomável da dignidade dos descartados, dos que não contam. Pode dizer o que confessava o grande missionário Paulo de Tarso em sua última carta antes de ser morto: “Combati o bom combate, terminei a minha missão, guardei a fé” (2Tm 4,6). Você viveu uma vida feliz e abençoada. Valeu.

A nossa saudade vira compromisso. Seguir o seu exemplo de vida é a poderosa vacina capaz de derrubar os vírus mortíferos da indiferença, do ódio, da exclusão, que circulam perigosamente e vergonhosamente em certos ambientes político-partidários e nas relações sociais do nosso mundo de hoje.

Grande abraço. Eterna gratidão!

No sétimo dia da morte/ressurreição de pe. Bruno Sechi. 4 de junho, 2020.

Pe. Luis Mosconi